Cheguei em Durban numa sexta à tarde de verão. Meu simpático vizinho de poltrona no avião me ofereceu carona até meu hotel, no bairro de Morningside. Sua esposa, uma indiana linda e super chique veio nos buscar, num jipão destes que os ricos da África do Sul costumam usar. Elogiaram a localização do meu hotel e atenciosamente me deixaram na porta de casa, não sem antes insistirem que não havia nada para ver na área central da cidade e que eu deveria passar meus dois dias inteiros em Durban na praia de Uhmlanga, bairro chique a 15 km do centro. Talvez eles até tivessem razão, mas como era minha primeira vez na cidade, queria mesmo era circular no centrão.


O final da tarde de sexta foi dedicado ao reconhecimento do meu bairro (fotos acima). Morningside, que junto com Musgrave, Essenwood e Berea ocupam uma zona alta, bem residencial e com vistas lindíssimas para a praia e o centro da cidade. É um lugar estratégico para se hospedar, seguro à noite, com bares e restaurantes legais e longe do pessoal da excursão, que fica na beira mar, na Golden Mile, que já está com seu dourado meio descascado.

Depois de uma hidro no terracinho do hotel, com a vista aí acima, hora de sair pra explorar a noite do bairro – a pé, coisa rara na África do Sul. Na Florida Road está a melhor noite de Durban, com bares frequentados pelos locais. O melhor de todos não fica exatamente na Florida, mas ali perto, é o Bean Bag Bohemia, o melhor bar que fui em toda a viagem. Em poucos minutos, já tinha uma turma de amigos, que me “obrigaram” a comer um bunny chow, um prato local, que comi às lágrimas, de tanta pimenta, mas comi até o fim, para fazer bonito e também porque o négócio era bom demais. Do balcão do bar, passamos ao andar de cima, onde rolava um aniversário não sei de quem e depois não tenho mais registros. Os locais falam que em Cape Town o povo é metido e distante e que em Durban é que o bicho pega. Acho que é verdade. Se estas comparações não fossem sempre tontas, poderiamos dizer que se Johannesburg equivale a São Paulo e Cape Town ao Rio, então Durban é Salvador cuspido e escarrado.
Sábado pela manhã, esquecer a ressaca e rumar ao centrão, não sem antes ver a cara de surpresa e ouvir o comentário do dono do hotel: mas… o centro?…o centro é dos negros… E daí, branquelão? Com um pouco de disposição, dá pra ir a pé a partir de Morningside, até porque não tem transporte público mesmo. Realmente, o centro de Durban é território dos negros, ao contrário de Cape Town, onde eles só vão para trabalhar e vão embora correndo às cinco da tarde. Diferente do centro de Johannesburg – também exclusivamente negro – aqui os brancos podem circular na boa, sem medo, tirando fotos e curtindo a manhã de sábado com as lojas cheias de gente.
Destino imediato: o Victoria Street Market. Este mercado se espalha pelas ruas vizinhas, vendendo o onipresente artesanato africano, temperos indianos, discos de artistas locais, carnes nojentas e tudo o mais que se possa imaginar. Logo ao lado, a mesquita Juma Musjid, dita a maior do hemisfério sul, ajuda a desorientar ainda mais a bússola cultural do viajante.



Na sequência, caminhando pela West St. (foto abaixo à esquerda), onde estão muitas lojas de departamento, chega-se à praça da prefeitura, o City Hall Square, uma praça bonita, cercada de edifícios históricos, entre eles a própria prefeitura, a Playhouse, com cinemas, museus e teatros e o Workshop, um shopping que ocupa o edifício de uma antiga estação de trem (abaixo à direita).


Mais algumas quadras e chega-se ao Victoria Embankment (foto abaixo) a parte mais antiga do porto de Durban, onde se tem bonitas vistas do mar e o BAT Centre (mais abaixo), um centrinho de artes visuais com lojas de artesanato e também coisas mais transadas, mais artísticas, camisetas, serigrafias. Esse é o lugar para comprar algo fora do padrão.


Mais uma caminhada sob o sol e estamos no beachfront de Durban, mais precisamente no Ushaka Marine World, indicado por 10 entre 10 habitantes como a grande atração da cidade. Acho que isto merece um post específico também, mas já adianto que o lugar não é ruim não. É bem turístico, claro, uma mistura de shopping e parque temático, com guerreiros zulus surrando seus tambores sem parar, mas é só entrar no clima que a coisa rola.
O almoço foi no Moyo, um restaurante presente em outros lugares da África do Sul – igualmente turístico, mas com comida boa (um couvert com pãezinhos inesquecíveis) e uma super vista para a praia em frente, cheia de gente bacana. (fotos abaixo)



Ao lado do Ushaka, numa pontinha de terra cinematográfica, deu para perceber que o Point Waterfront (foto abaixo), vai virar logo logo o bairro moderno da cidade, já dá para ver alguns empreendimentos imobiliários surgindo e bons hotéis já estão se estabelecendo por lá.


Depois do almoço, mais uma caminhada pela orla, a Golden Mile. É aqui que Durban mostra um lado mais desgastado, com um calçadão meio sujo e edifícios caídos, dá até um certo medo de andar em alguns trechos. Mas tem trechos legais também, com vários píeres que entram mar adentro. (foto acima) Um banho de mar, só pra dizer que entrei no Índico e pronto. O mar é meia-boca, a única vantagem é que é quentinho, ao contrário de Cape Town. A caminhada termina no Suncoast Casino e sua praia particular, mas isto é programa para amanhã. Para a volta a Morningside, um taxi, porque já foram uns 10 km hoje.

Domingo o dia seria curto, já que o vôo de volta a Cape Town era as quatro da tarde. De manhã cedo, uma visita ao Jardim Botânico (fotos acima) e depois só praia, mais precisamente no Sundeck (fotos abaixo), a praia que pertence ao Suncoast Casino. O cassino é dispensável, mas o deck é bem legal. Para entrar paga-se o equivalente a cinco reais, com direito a cadeira em um gramado impecável. Para entrar no mar precisa sair do cercadinho, sujar o pé na areia e se misturar com o povo.
Quando fui, o estádio para a Copa estava em construção, parece que agora virou um programa que vale a pena. E Uhmlanga ficou para a próxima.
